terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Banheiro feminino

Porquê um homem não deve utilizar o banheiro feminino? Nada o impede. Nenhuma lei o proibe. Na verdade, a única coisa que o constrange é o respeito à intimidade do outro, é o bom senso, é a boa educação, sem a qual a convivência em sociedade se torna insustentável.

Laerte é homem, cartunista, pai de dois filhos, tem 60 anos. Recentemente, (2010) decidiu se vestir de mulher. Tecnicamente, é um Crossdressing. Ele protagonizou uma cena ao utilizar o banheiro feminino em uma Pizzaria em Sumaré, São Paulo, no último dia 24 de janeiro.

Uma mãe se sentiu "constrangida" porque sua filha estava no banheiro onde Laerte entrou e pediu à direção da casa que solicitasse a sua saída do banheiro.

"E daí que ela estava com uma criança?"  - afirmou Laerte. "Banheiro é uma das áreas mais tabus que existe. Ela não entendeu a existência do transgênero. Eles estão desinformados. Com boa ou má fé, eles estão praticando o preconceito".

Em entrevista ao Bom Dia Brasil, Laerte não deu nenhum sinal da agressividade registrada no site do Terra (http://migre.me/7JSJK). Mas a comparação com a luta dos negros americanos, na semana de comemoração do Martin Luther King Day, foi simplesmente inaceitável! Laerte não foi barrado a um local público, mas a um local com restrição de gênero. No melhor estilo "vocês vão ter de me engolir", desconhece o direito à intimidade de sua concidadã.

Durante 59 anos Laerte utilizou o banheiro masculino. O baton lhe dá o direito de agredir a forma que uma mãe pretende educar sua filha? Quem agride quem, quando um homem se arvora no direito de querer mudar a convivencia social do outro à força?

A Lei  10.948 do Estado de São Paulo padece de clareza jurídica em pelo menos dois pontos:

(i) Não define o que seria um "transgênero"; o que é compreenssível, pois não existe uma definição. Alguém passa a usar baton, se torna transgênero?

(ii) Não define se locais como "banheiro feminino" são locais públicos, aos quais a lei corretamente pretende garantir o acesso a qualquer orientação sexual sem discriminação.

Mas, discriminação de transgênero no banheiro? Como evidenciar isto do ponto de vista legal e jurídico? O que está escrito na cédula de identidade? Biologicamente, como foram gerados os filhos do cidadão em questão? O vestido muda tudo? Afinal, o que define o "transgênero"? Como registrar isto legalmente?

Há uma realidade que é além da subjetividade, que Laerte descobriu só bem recentemente. Da mesma forma que abominamos os que querem desrespeitar os homossexuais, perseguindo-os e até matando-os, devemos também compreender que nenhum ser humano pode ser constrangido da forma que foi esta mãe.

Os homossexuais não têm este direito. O Estado não tem este direito. Muito menos pode a Assessoria de Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo usar o imposto que pagamos para promover a discórdia entre os cidadãos de forma artificial, desconhecendo os direitos de ambas as partes. E é isto que ela faz ao não interpretar de forma sistêmica a Lei Estadual 10.948.

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PS.: O tema é polêmico. Acreditamos e respeitamos o direito de todos a discordar das opiniões aqui exaradas. Qualquer crítica ou argumento do leitor será publicado, desde que se identifique e se atenha à apresentação de argumentos, sem utilização de agressões verbais gratuitas, por que não deve comprometer o meu direito a exarar a minha opinião!

domingo, 29 de janeiro de 2012

Neruda, Canto LXXXIX

de tarde...

Desfazendo as malas, entre os gêneros de primeira necessidade, encontrei Neruda, 100 Sonetos de Amor, aberto no canto 89:
 
LXXXIX

Quando eu morrer, quero tuas mãos em meus olhos:
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero
quero que teus ouvidos continuem ouvindo o vento
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando as areias que pisamos juntos

Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas
por isso, segue tu florescendo, florida

para que alcances tudo o que meu amor te ordena
para que passeie minha sombra por teu pêlo
para que assim conheçam a razão de meu canto

pela manhã...

PS.:  Tinha as fotos das Orquídeas do Campo para um texto que deveria chamar: "Para mim basta um dia..." Duram apenas 24 horas. Depois é até difícil de achar o talo onde elas floresceram!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Carro de MInas

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Domingo de sol, estrada vazia.
A terra ainda molhada das últimas chuvas exala aquele cheiro de mata das montanhas de Minas.

Conceição da Barra de Minas é logo alí, em direção a São João del Rey, no trevo da 265, virando à esquerda.  Cidade pequena, alvoroçada com o Desfile de Carros de Boi! Estava tirando fotos dos garrotes quando aquela hospitalidade mineira me chega na voz da Lilian, filha do Sr. Nilson: "Hei moço, entra e vem tomar um cafezinho antes do desfile". Na mesa, café e pão com carne moída, como minha mãe fazia a tantos anos.Adorei o convite! Tinha saido de casa cedo, sem tomar café direito. Depois, foi só viver aquele clima de Minas Gerais, como que saído do seio da terra.

Carro de Boi,
Carro de Minas
leva a saudade
e me trás aquela menina
Carro de boi
Carro de Minas

PS.:  Sr. Nilson foi o idealizador deste primeiro encontro de Carros de Boi em Conceição da Barra de Minas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Eu disse, isto é onça...


Uma família de Jaguatiricas foi avistada na mata próxima ao Sítio Águas Claras. Ariscas, elas rondam o chalé a noite, mas somente uma vez puderam ser vistas. Elas se refugiam na imensa voçoroca que se formou a anos pela ação predatória do homem. Agora, estabilizada e com uma mata em formação, a voçoroca acaba sendo uma proteção para animais selvagens.

A natureza sempre descobre um jeito de preservar a vida...

domingo, 22 de janeiro de 2012

Vídeo curto das ruínas no Sítio Águas Claras

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Pequeno vídeo no local das ruínas de uma barragem de açude da época dos escravos, Sítio Águas Claras, Itutinga-MG.


Ruínas de uma barragem

Parte mais conservada das ruínas da barragem de um açude da época dos escravos no Sítio Águas Claras, Itutinga

Nesta região do Sul de Minas, que se insere no trajeto da Estrada Real, há um número enorme de Muros de Pedra da época dos escravos.

Neste sábado, procurando por uma nascente para fornecimento de água potável para o Chalé, embrenhei na pequena grota e descobri os restos de uma pequena barragem de captação de água com o mesmo estilo dos muros de pedra da região.

A água corre pelo que restou da barragem de 3 metros de altura.

Vertedouro da barragem secundária no segundo braço da afloração de água

Pouco restou de um Canal lateral da barragem principal, possivelmente utilizado para irrigar parte da propriedade rural.








Inacreditável! Emocionante!
Procurei informações sobre tombamento dos Muros de Pedra da região e não encontrei nenhum registro na base de dados do IEPHA http://www.iepha.mg.gov.br.

O que é um absurdo, pois são construções que percorrem quilômetros e mais quilômetros à margem das estradas da região e resistem ao tempo há mais de dois séculos. Como o meu achado comprova, existem mais marcas históricas do mesmo período, que não se restringem às grandes fazendas que ainda existem na região.

Estarei iniciando pesquisas para ter mais informações sobre a origem da barragem, pois a sede da fazenda original pode estar debaixo do Lago de Camargos que banha o Sítio Águas Claras.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O BBB e o estupro


De repente virou manchete e interessou ao Ministério público: um estupro foi veiculado pela TV ou não?! Na verdade, esta pergunta é sem sentido. O BBB em si é um estupro contínuo de mentes e corações. Invade o nosso lar e inculca valores em nossas crianças.

Dou razão a quem entende o BBB como um experimento social, em que uma micro-sociedade reflete valores de uma sociedade real.  Mas que sociedade é esta?

Por certo não é a sociedade dos meus sonhos. Mas, alguns acreditam, seria a sociedade brasileira real?  Não, de forma alguma.

Nas várias edições, poucos eram realmente pobres. Muito poucos eram negros. Ninguém estuda. Nenhum participante entrou por causa de suas ideias, por causa do que pensa ou crê. Não existe nenhum religioso, evangélico ou católico carismático nesta micro-sociedade. Mas pelo menos dois homossexuais em cada edição. Os religiosos são sub-representados, os homossexuais sobre-representados! 

Por quê? Porque o que conta não é o que se pensa, se constroi ou se acredita. Mais relevante na escolha de Pedro Bial é o comportamento sexual do indivíduo. Qual o seu comportamento na cama. Hedonista por definição filosófica, a micro-sociedade que está na Globo não é a real, não é a dos meus sonhos. Mas então deve ser a dos sonhos de alguém nesta história! Ou, é simplesmente a que  gerará mais audiência e lucro devido à perversidade natural de nossa sociedade.

A TV Globo mostraria mais responsabilidade social e compromisso com a Educação se cancelasse definitivamente este programa deseducacional. "Amigos da Escola" não vai reparar os danos que os exemplos dados no BBB vão causar.

PS.:  O argumento simplório que basta desligar a TV quem não quiser assistir não se aplica. O que a maior rede de TV do país veicula em seu horário nobre concerne a todo o cidadão, aos pais, educadores e políticos sim!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O CNPq não quer Pesquisa em educação

 
Na identificação dos impasses de nosso desenvolvimento sócio-econômico, a necessidade de melhoria na educação é unanimidade. Só não disseram isto para o CNPq.

Os burocratas da ciência em Brasília lançaram um ambicioso programa de internacionalização da ciência no Brasil: Ciência sem fronteiras. O programa tem uma meta de 75.000 bolsas até 2015 em diferentes níveis de atuação.


Modalidade
Nº de Bolsas
Doutorado sanduíche
24.600
Doutorado pleno
9.790
Pós-doutorado
11.560
Graduação sanduíche
27.100
Treinamento de Especialista no Exterior (empresa)
700
Jovem Cientista de grande talento (no Brasil)
860
Pesquisador Visitante especial (no Brasil)
390
Total
75.000



O programa é enfático em destacar que serão apoiados projetos de "excelência internacional nas áreas prioritárias do Programa Ciência sem Fronteiras". 


Quando lemos as áreas prioritárias, a decepção:  Pesquisa em Educação não é prioridade.
Aguardo neste momento o pronunciamento do CNPq se  "não é prioridade"  ou se "não será fomentado de forma alguma".


Num momento de uma dramática internacionalização da educação, de avanços tecnológicos e novos paradigmas, o "esquecimento" da área de educação é profundamente lamentável!


Estou convencido de que a grande maioria das decisões "reguladoras" que estão em implementação na área de Ciência e Tecnologia que são criadas pelo CNPq, CAPES e agências estaduais como FAPEMIG e FAPESP são danosas ao desenvolvimento científico do País.


Link do Programa: http://www.cienciasemfronteiras.gov.br/web/csf/home

PS.:  A resposta do CNPq foi curta e grossa: não são áreas prioritárias, são exclusivas. Educação não faz parte das preocupações da agência.

Isto me faz lembrar o nascimento do projeto PhET - vejam neste blog AQUI  - Foi necessário que Carl Wieman colocasse todo o peso de ser um laureado pelo prêmio Nobel para iniciar o projeto de desenvolvimento de Softwares Educacionais em Física na Universidade do Colorado, por acreditar que o desenvolvimento de novas tecnologias educacionais é fundamental para o despertar de novos cientistas. Como este pobre País não possui um único Nobel, não temos esperanças de convencer a CAPES e o CNPq deste erro!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Elas têm direito a sonhar

Procura-se ...
um Studio, as modelos eu já tenho!!!

Amigas para sempre...

Elas têm direito a sonhar...

Nathália, Isadora, Mariane e Eduarda em fotos no studio em Vitória-ES.

Foi assim.
Correndo para reunião de trabalho na Secretaria de Educação de Vitória para preparação de um livro, deixei as priminhas no Shopping. Recomendação:
"Curtam as fotos. Passo mais tarde para pegar vcs."
Parece que se divertiram!

sábado, 7 de janeiro de 2012

Chico, Chico, Velho Chico


Rio São Francisco, amanhecer de Buritizeiros


Rio Chico

Chico, Chico, Velho Chico,
nas brumas de tuas corredeiras,
leva para longe as mágoas, marcas do tempo,
seca os olhos marejados,
Velho Chico,
apaga as dores da injustiça.

Chico, Chico, Velho Chico,
onde andarão os teus algozes?
Chico, Chico, Velho Chico.
Maltrapilho e maltratado. Os meus,
Velho Chico,
não me deixam em minhas noites escuras.



Chico, Chico, Velho Chico
tu que por tuas paragens,
albergas a vida e a morte,
desde pré-históricas eras
Amola em tuas pedras,
minhas guerreiras lanças, Cariris.
Dá abrigo e descanso
aos peregrinos de tuas margens.
Ensina-me, da alegria diária,
Velho Chico,
a lenta reconstrução.



Chico, Chico, Velho Chico,
que nem Lula, o imprudente,
fruto de teu fecundo ventre,
deixou de te magoar.
Abrindo tuas veias,
a sangrar tua vida,
Chico, Chico, Velho Chico,
ensina-me a perdoar!


Vem, chaveiro do Velho Chico
abre as cadeias de meu coração,
retira o ódio que a injustiça cravou.
Mas por favor,
deixe intactos a indignação e o orgulho,
como orgulhosas são,
Velho Chico,
as luzes de teu amanhecer.




Chico, Chico, Velho Chico
que abraço de aço te deu o velho Marechal,
dos tempos em que tu eras grande e respeitado,
hoje ainda imponente, mas abraço enferrujado,
Que a decadência da rainha louca,
te traga, mais uma vez, a ternura e a alegria,
Velho Chico,
do humano que em ti carregas.


Chico, Chico, Velho Chico,
com o Vapor e sua força de cem anos,
alivia a carga que me pesa,
carrega, intrépido,
pelas montanhas de encontro ao mar,
Velho Chico,
meus modos de sonhar.


Chico, Chico, Velho Chico
Fonte de vida, praça de guerras,
Foras da Índia, serias sagrado,
Velho Chico,
como a própria vida.



Pirapora/Buritizeiros, 6/2/2010


domingo, 1 de janeiro de 2012

Para que serve a velhice?

Foto de Lígia Guerra e Fred Veras "Um ensaio sobre a velhice" - Blog Potiguarte.

Os passos trôpegos denunciavam o peso dos anos. Com um caminhar lento, meu avô, amparado por mim e pelo Walninho, outro neto, descia a rua João Pinheiro em direção à Catedral. Naquela tarde clara e ensolarada, o céu imensamente azul permitia vislumbrar o início do verão. Quase alinhado com a rua, o sol projetava nossas longas sombras sobre a calçada.

Meu avô estava feliz ao lado dos netos. Falava de coisas simples, perguntava sobre nossos estudos. Observava as árvores do jardim central da cidade e suas imensas palmeiras imperiais. Àquela hora, as sombras das palmeiras já eram maiores que seu comprimento, se alongando pelos canteiros floridos e a linda calçada de pedra lascada do jardim.

  • "Eu quero rezar meus filhos."

Vindo de uma família de tradição muito católica, vovô naquela tarde iria à igreja com dois netos protestantes. Iria falar da importância de vida espiritual, para dois netos que tinham vivido experiências religiosas profundas já na primeira infância. Iria contar histórias do velho testamento da bíblia há muito conhecidas. Sabíamos mais detalhes do que os que ele contava. Ouvíamos em silêncio e respeito. Admirávamos aquela vida que desconhecíamos.

Somente muito depois poderíamos saber que aquele homem estava a frente de seu tempo. Educou suas filhas no ensino superior para que elas pudessem garantir posição e independência na vida.

  • "Neste país agrário, a mulher precisa estudar e se formar para ter um lugar na sociedade."

Dizia isto há oitenta anos atrás, quando a realidade da mulher na sociedade brasileira era muito distante desta realidade.

Quando meu pai e minha mãe estavam para se casar sob forte oposição da família, que reconhecia em meu pai a "maldição dos três P's - preto, pobre e protestante", ele garantiu o casamento.

  • "É um homem honrado!"

Entramos na nave da catedral. Admirava os raios de luz iluminando a nave do templo pelos vitrôs coloridos antigos. Que linda a Catedral de São João Batista em Caratinga! Era a primeira vez que eu adentrei uma igreja católica. Um sentimento de admiração e desconhecido.

Meu avô procurou um banco, se ajoelhou no genuflexório e rezou por alguns minutos. Levantou os olhos e percorreu a história de Jesus retratada na arte da igreja. Pouco depois se levantou e saimos.

  • "Um homem nunca deve se esquecer de sua vida espiritual."
Passeamos pelos jardins da praça, ele nos pagou um picolé e voltamos para casa.

Para que serve a velhice?
"Ser o filho, depois ser o pai..." diz a canção.

Para que serve a velhice, senão para trazer à memória o drama de nossa condição humana, para construir a nossa memória coletiva da saga do ser humano. De pai, para filho, para neto... A memória perpassando a cadeia da vida! Pode ter resultados práticos, como orientar a história para que como país não esqueçamos o nosso passado e não cometamos os mesmos erros. Pode não ter resultado prático nenhum. Pode apenas servir para que as novas gerações, que herdam este mistério da vida, tenham um horizonte e um norte, tenham um amor desmedido por esta coisa etérea que nos move, descubram os valores não materiais da vida, descubram o sentimento de vazio em nossos corações que nos mostra que a vida é muito mais do que o pão de cada dia.
A velhice serve para nos fazer mais humanos e elevar nosso pensamento a Deus e ao mistério da vida.